Ex-massagista do SP Crystal incentiva irmãos de fé a não se esconderem

Foto: Ana Flávia Nóbrega

Couro esticado acompanhado de mãos firmes e cheias de fé que fazem o som do atabaque esquentar a roda, convidar as entidades e celebrar a vida. O ritual se repete em inúmeros terreiros de religiões de origem africana no Brasil.

Semanalmente, os participantes da umbanda, candomblé e outras vertentes se reúnem para cultuar seus Orixás e pedir forças para seguir vivendo sua fé sem que isso seja um motivo de ataques de ódio vindos de pessoas que não conseguem enxergar a pluralidade da fé dentro de um país. Visão que ainda tem muito do regime escravocrata vivenciado pelo nosso país.

Como garante a Constituição Federal, o Brasil é laico há mais de 120 anos e não discrimina nenhuma religião. Na prática, o país mostra as faces mais severas da intolerância religiosa com casos de agressões verbais, físicas, depredações e destruição de imagens e centros, tentativas de homicídio e incêndios criminosos. A realidade obriga muitos seguidores dessas religiões a esconderem-se e viver sem o direito da liberdade de expressão. Edson Borges Araújo era uma dessas pessoas.

Foto: Ana Flávia Nóbrega

Conhecido como Boca, Edson tem 46 anos é baiano e trabalha no mundo do futebol como massagista. Atualmente o profissional, que é Filho de Santo, designação para quem tem um Orixá regente, exerce sua profissão no São Paulo Crystal, na disputa do Campeonato Paraibano de 2020, e virou notícia logo na primeira rodada da competição.

Na ocasião, Boca usou roupas que remetem a sua religião e acabou entrando para as estatísticas de quem sofre com casos de intolerância religiosa após o presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Paraibana de Futebol (FPF), Arthur Alves Júnior, recriminar o uso das peças alegando que o massagista do time de Cruz do Espírito Santo não poderia usar as vestes nem no gramado e nem na Paraíba. Na ocasião, o massagista disse que se sentiu humilhado.

A denúncia foi feita pelo próprio Boca e por torcedores do Botafogo-PB que estavam na arquibancada. O caso que revoltou os membros do São Paulo Crystal, mesmo que o acusado tenha negado qualquer tipo de comentário preconceituoso.

Segundo o Levantamento feito pelo Ministério dos Direitos Humanos (MDH), só no primeiro semestre de 2019, houve um aumento de 56% no número de denúncias de intolerância religiosa em comparação ao mesmo período do ano anterior. Entre 2015 e 2019, foram 2.722 casos de intolerância religiosa – uma média de 50 por mês – e a maioria foi relatada por praticantes de crenças como a Umbanda e o Candomblé.

Uma semana após o ocorrido, Boca, como bom Filho de Santo, falou que desculpa Arthur por qualquer tipo de imbróglio.

– Entrei no futebol em 1999 e estou até hoje. Gosto muito do que eu faço. Tenho a minha religião, que é do Candomblé, e eu só tenho a agradecer a Deus por tudo que ele faz comigo e aos meus Orixás. Já trabalhei em uns 20 clubes. Em todos os clubes eu fui respeitado pela minha religião. Só aqui na Paraíba que teve esse problema. Mas eu desculpo esse rapaz que fez isso comigo porque eu não gosto de confusão, não gosto de problema. Desculpo ele por tudo e peço desculpas por tudo também, mas eu não falei nada demais, só fui colocar água para o meu goleiro. Para mim, ele está perdoado, só não pode mais fazer isso porque ele não pode me impedir de vestir a minha roupa. Lugar nenhum pode me proibir de usar minha roupa – declarou Boca.

Foto: Ana Flávia Nóbrega

O massagista, que começou a exercer a profissão após o convite de um amigo, agora vai para onde o treinador Índio Ferreira vai.

– Trabalhei no Nacional de Patos no ano passado porque para onde o treinador Índio vai, eu vou também. No Nacional, eu não trabalhei com essa roupa porque achava que alguém ia mangar (rir), né? Porque em muitos lugares as pessoas mangam da minha roupa, fazem críticas e eu sou uma pessoa envergonhada. Aí não usei a roupa no ano passado. Agora eu me sinto mais à vontade. Estou em casa e vou continuar vestindo. São 25 roupas diferentes, e eu uso uma diferente em cada jogo – relatou.

Boca acompanha Índio Ferreira nos clubes por onde o treinador passa. Foto: Ana Flávia Nóbrega

Edson Borges tem Ogum, Orixá símbolo de força, luta e conquistas. No sincretismo religioso, é representado por São Jorge, um dos Santos mais cultuados no país. É baseado nessa força que, apesar de sentir na pele o que é viver escondido e sofrer com preconceitos por sua crença, Boca incentiva os seus irmãos de fé para que criem coragem de ser o que realmente são, sem medo do que virá.

– Depois que aconteceu, os torcedores na arquibancada disseram “não abaixa a cabeça, não. Você tem que dar queixa mesmo”, porque o torcedor viu a maneira que ele falou comigo, e eu respondi “vou deixar com Deus e com meus Orixás”. E é sempre assim. Eu digo aos que são meus irmãos de religião que não tenham preconceito e usem as roupas que queiram usar. Que demonstrem o que é e não fiquem presos. (Quem não gosta) Tem que se explodir – finalizou.

Foto: Ana Flávia Nóbrega

Equipe @Vozdatorcida