Blog do VT – Poderosos impedem, novamente, que futebol dê exemplo durante a pandemia

Com mais de 2300 mortes na última quarta-feira (10 de março de 2021) em todo país, um recorde durante a pandemia do novo Coronavírus, que assola o país sem nenhuma ação efetiva para combatê-la há um ano, não existe condição minimamente humana de se pensar em futebol. Não há.

Entretanto, ainda mais se tratando de um futebol periférico com pouco dinheiro envolvido, mas o pouco que sustenta a vida de muita gente, infelizmente, é impossível se cogitar com que, doze meses após a primeira paralisação, tudo seja simplesmente suspenso mais uma vez.

Obviamente o esporte bretão não é serviço essencial, e a lógica perversa do “cada um por si”, pregada pelo governo federal desde o início, deixando cada um a própria sorte, faz com que não haja sentido interromper os campeonatos, ou nem iniciá-los, no caso do estadual da Paraíba, se Shoppings, lojas, restaurantes, bares, entre outros locais, estejam normalmente recebendo pessoas.

A alegação de que é uma bolha segura pelo fato de que atletas e comissões são testados constantemente acaba perdendo todo sentido quando se vê facilmente nas redes sociais que grande parte destas pessoas estão se lixando para o próximo. Enquanto não testarem negativo, estão em aglomerações em suas cidades, fora delas, recebendo amigos, indo para restaurantes, burlando decretos restritivos das cidades e, nesse vai e vem, fazendo com que o vírus possa circular livremente consigo. Os clubes sequer pedem por favor para que seus torcedores não façam aglomerações de incentivo ou de repúdio antes ou depois dos jogos. Não ligam. Não há consciência dos próprios personagens do meio.

Em uma situação em que prefeitos não querem receber pacientes de outras cidades enquanto outros buscam equipar seus sistemas de saúde a beira de colapso com UTIs, o pensamento no próximo já foi às favas há muito, muito tempo.

Mas se tudo segue funcionando normalmente, ignorando a maior média-móvel de casos e mortes em praticamente um ano em que nada se aprendeu – ou foi ignorado – para minimizar os riscos da doença, se ninguém faz sua parte, por que o futebol pararia sozinho, deixando dezenas de milhares que dependem do suado dinheirinho da periferia da bola à mingua?

Ora, se houvesse um governo federal minimamente preocupado com a vida de seu povo, mesmo os que não concordam com suas ideias, que não menosprezasse a doença, ignorasse a ciência e respeitasse as recomendações de órgãos de saúde mundiais, ou até de seus próprios Ministros da Saúde que preferiu demitir ao invés de levar a sério a situação, haveria um subsídio geral para que tudo fosse paralisado até que se houvesse uma mínima estabilidade (neste caso, depois de uma queda severa nos casos) no caos atual, como aconteceu em dezenas de países mundo afora. Mas não existe esse pensamento por aqui. “E vai tirar dinheiro da onde?”, pode-se questionar. Se fala tanto em um Ministro da Economia “pica”, então ele deveria dar o jeito. Mas ele não tem a menor intenção de que as pessoas não passem necessidades, prefere que arrisquem suas vidas e as de quem estão ao seu redor.

Ainda assim, falando de futebol brasileiro, haveria como o futebol dar um pontapé inicial em vez de achar que é uma realidade paralela. Como? No sistema hierárquico desse esporte no país, há uma confederação nacional e entidades estaduais que só arrecadam, arrecadam e arrecadam. Clubes pagam taxas de absolutamente tudo para poder jogar e ainda gerar mais receitas para a Confederação Brasileira de Futebol e Federações estaduais na forma de patrocínios. A própria CBF vangloriou-se em 2019 de uma arrecadação recorde de R$ 957 milhões, com um lucro que girou na casa de R$ 190 milhões. Isso em um ano.

Fundada em 1914, tendo tido por vários nomes, a entidade não poderia abrir os cofres para quem tanto gerou receitas e lucros não morram de fome? As 27 ambulâncias doadas pela CBF durante o Campeonato Brasileiro da Série A de 2020, fato que encheu de vaidade o presidente Rogério Caboclo, são suficientes para um CNPJ se vangloriar tanto?

E as mesadas que as Federações recebem? São usadas para que se, no caso da Paraíba, até as despesas de borderô voltaram para a conta dos clubes enquanto a FPF promove luxuosas festas de abertura e encerramento de estadual no mesmo momento em que seus clubes – este ano sem exceção – estão com o pires na mão buscando toda e qualquer fonte de receita para poder simplesmente entrar em campo?

Jogadores, roupeiros, massagistas, treinadores, auxiliares, preparadores-físicos, o pessoal que prepara a comida dos atletas, todos esses pagam, arriscando suas saúdes, por uma estrutura que está incluída no mesmo contexto da sociedade atual. São peões. Enquanto colocam a vida em jogo, literalmente, o pessoal da caneta assiste de casa, com o bolso cheiro, assim como a taça de champagne, vendo seu produto seguir rendendo lucro em meio a pior crise sanitária desta geração

Quantos Gláucios Limas, Eduardos Araújos, Ruys Scarpinos, entre outros, teremos que perder até acordar que fazemos parte de um todo? Infelizmente, por dentro, parece que todos estamos dormindo em berço esplêndido. Ao menos nossa humanidade, com certeza está.

Há um texto excelente do jornalista Paulo Vinícius Coelho, do Sportv, que mostra como futebol seguiu sendo disputado enquanto os casos de Covid-19 caíam em Portugal. Mas, com o país em situação de lockdown que, por conta de pressões de todos os lados, nunca acontecerá no Brasil. Então, por isso, alguém teria que dar o pontapé inicial. Mas ninguém vai.

Élison Silva
Editor do site e comentarista

Equipe @Vozdatorcida