Transparência nos clubes só é possível com democracia, aponta líder de torcida LGBT

Foto: Raphael Muller/ Folhapress

Os debates em busca de mais democracia e transparência ganham cada vez mais destaque nos bastidores da Maravilha do Contorno. Questionamentos a respeito das contas da atual diretoria executiva e a pressão da torcida pelo direito ao voto serão as pautas em reunião do Conselho Deliberativo no próximo dia 06.

Se por um lado esses temas ganham espaço nas discussões internas do clube, a aproximação e engajamento com as pautas sociais enfrentam resistência e são ignoradas, data após data, pela direção da agremiação. Um clube controlado em sua maioria por homens brancos, héteros e cristãos não demonstra se importar com as demandas de um torcida plural.

Como as questões internas e os assuntos ligados aos temas da sociedade se cruzam? A ausência de transparência e de envolvimento com a comunidade são sintomas de associações que não possuem uma estrutura aberta e democrática.

Conquistas nesses campos só são possíveis com um processo de democratização profunda, nos moldes experimentados pelo Esporte Clube Bahia. Essa é a opinião do militante e torcedor Onã Rudá, líder e fundador da torcida LBGTricolor, grupo formado por torcedores LGBTs do clube baiano, que conta com o reconhecimento institucional da diretoria do Esquadrão de Aço.

Em entrevista na Live do VT, segunda-feira (28), o torcedor contou um pouco das suas experiências a frente do movimento ao passo dos avanços conquistados no estatuto do clube em relação a uma abertura democrática.

– O Bahia passou por um processo de democratização que passou pela participação ativa da sua torcida. Não necessariamente todo mundo que participou dessa luta era sócio, vivia o ambiente do clube, porque o clube vivia um ambiente fechado que nem a própria torcida conseguia ter acesso a informação, a dados. Devo dizer que o que descobrimos no que era feito no clube antes da democratização nos deixou em alerta de como precisamos cuidar do futebol como um patrimônio – disse.

Em dos recentes desentendimentos que vieram a público entre os conselheiros do Belo diz respeito a acusação, por parte do ex-diretor Breno Morais e seu grupo, de um suposto empréstimo realizado pela diretoria executiva sem a devida exposição.

A prestação das contas do ano anterior, de acordo com a Lei Pelé, deve ser apresentadas até o dia 30 de abril do corrente ano. É um processo que, mesmo a contragosto, força os clubes a dar publicidade a sua situação fiscal. O que, mesmo assim, nem sempre ocorre, ou acontece sem a devida auditoria, cenário apenas possível pela falta de mecanismos que deem ao torcedor esse poder fiscalizador.

Mas não só nas questões administrativas e financeiras que houve avanços do Tricolor da Boa Terra após as reformas estatuárias. Foi também no campo dos temas sociais que o Bahia tem se tornado a referência no país em suas ações de publicidade.

– Só existiu a possibilidade de dar esse passo (fundação de torcida declaradamente LGBT) no Bahia porque esse processo de democratização ocorreu. Há que se pensar em democratização. Esse é um extrato muito interessante, porque os clubes do Brasil que têm algum tipo de trato mais democrático, procura ter, ou está passando por isso, são os que mais tem se aberto ao diálogo com seus torcedores LGBTs nesse momento – lembrou.

Levantamento realizado pela página O Contra-Ataque mostra que os primeiros clubes que se manifestaram, e portanto passaram a pautar os outros, em relação as causas da população LGBT, foram justamente os que já experimentavam um processo de escolha democrática das suas lideranças.

Foto: Reprodução

Para Onã Rudá, a democracia é fundamental no futebol e, ao experimentar esse modelo, o Bahia inaugurou algo inédito no país em seus mais variados aspectos, tanto social quanto estrutural.

– É muito importante que percebamos que a democracia é um regime de conquistas. Só conquistamos esses avanços em uma democracia. Fora isso é contar com benevolência de atores e atrizes que não estão convencidos sobre esse debate. Para algumas pessoas o futebol é só grana – afirmou.

Equipe @Vozdatorcida