Omissão contra a homofobia desaponta torcedores do Bota-PB

Foto: Caio Guilherme/Voz da Torcida

A omissão da diretoria botafoguense, como a de outros clubes paraibanos, entre eles os seus dois grandes rivais de Campina Grande, no Dia Internacional Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, no domingo (17), causou revolta entre seus torcedores e sócios.

A escolha da data de 17 de maio, em 2004, para representar o combate ao preconceito é devido a nesse mesmo dia, em 1990, a Organização Mundial da Saúde desclassificar a homossexualidade como um distúrbio mental da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID).

Ainda no caso botafoguense, em seu Instagram, houve uma postagem de apoio a causa foi realizada em 2019, mas devido a uma pressão interna de membros e pessoas ligadas a executiva contrárias a esse tipo de manifestação, em 2020 o Botafogo-PB se omitiu. De acordo com o apurado, uma suposta “democracia” foi determinante para a omissão neste ano, como forma de agradar os que criticaram a lembrança do ano anterior.

Porém, no dia seguinte, divulgou nos stories do Instagram oficial, uma postagem de um patrocinador, em homenagem ao dia dos vidraceiros.

Foto: Reprodução/Instagram

Os episódios causaram revolta em diversos torcedores do Belo que se sentiram desrespeitados, como também naqueles que são simpatizantes da causa e lutam pelo fim da violência e preconceito. Alguns deles são sócios do clube, ou pelo menos eram, como é o caso da gerente lojista, Natália Garcia, de 30 anos.

Natural de Natal-RN, a potiguar, que mora em João Pessoa há  dois anos, decidiu escolher, ao chegar na capital paraibana, o branco e preto com a estrela vermelha como sua nova paixão. Há 4 meses foi além, tornando-se sócia-torcedora do Belo, uma forma de contribuir ainda mais com o clube.

Mesmo diante da pandemia do novo coronavírus, com as atividades do futebol suspensas, o que diminui sensivelmente a arrecadação, estava decidida a manter o pagamento em dia, apesar de não poder usufruir do principal benefício que o programa oferece, que é a oferta de ingressos para os jogos.

Em desabafo, em sua rede social, lamentou ser vista pelo clube apenas como um número. Para ela, a luta contra a LGBTfobia é de extrema importância no atual cenário social, e a voz de um grande clube como o Botafogo-PB é fundamental nessa luta.

– Me senti como se não significasse nada pra o clube. Apenas mais um número na contagem de sócios. Minha revolta foi maior quando, no dia seguinte, eles fizeram uma mensagem sobre o dia do vidraceiro. Não estou desmerecendo os vidraceiros. Acredito apenas que o clube tem, por obrigação, lembrar de cada torcedor – desabafou.

É comum aos contrários que o clube preste esse tipo de apoio, diminuir a importância de atitudes como essa, com comparações esdrúxulas como um suposto esquecimento de diversas profissões ou religiões. Sendo importante lembrar que profissão que envolve risco de vida, como a de policial, foi lembrada para ser homenageada. Até sobre o Dia da Bandeira o clube fez postagem no fim do ano passado.

É fato que determinados grupos sofrem perseguição e risco de vida diariamente. Como instituição que tem por obrigação representar função social, seria uma ótima oportunidade para o clube prestar seu apoio aos torcedores que tanto o apoiam, e que são vítimas dessa violência diariamente. Segundo dados, uma pessoa LGBT é morta no Brasil a cada 16 horas.

Foi essa ausência de reciprocidade que incomodou a torcedora Jéssica Soares, de 27 anos. A advogada, sócia há 3 anos, que acompanha o clube de amistoso até final de campeonato, foi mais uma que mostrou sua indignação com o fato. Era a chance de ser retribuído este apoio incondicional oferecido por ela, mas preferiram se calar.

A torcedora se queixou que atuais membros da diretoria estariam com o pensamento ligado ao que está no poder atualmente no país, se manifestando segundo interesses pessoais, e não em prol dos torcedores. A omissão ao 17 de maio, para depois prestar homenagem a vidraceiros seria um sinal disso. Quase um deboche.

Diferente da Natália Garcia, Jéssica não vai deixar de ser sócia do clube, apesar da possibilidade ter passado pela sua cabeça. E lembrou da postagem realizada no ano passado com a frase “Somos todos alvinegros, mas hoje é dia de defender todas as cores”.

Foto: Reprodução/Instagram

– Então, não (cancelarei o sócio-torcedor), apesar de estar um pouco frustrada com a postura que vem sendo assumida por quem está a frente do clube, eu sei que eles passarão. O Botafogo-PB é muito maior que isso, a torcida também não se cala diante da omissão, então acredito que a gente vai superar essa fase meio “obscura” do clube – espera.

É essa certeza de que dias melhores virão e de que jamais irá se calar diante das injustiças que ela não vai desistir de lutar pelo clube que ama.

– Pelo menos da minha parte não tem faltado cobrança, mesmo que seja por rede social. Acho que em meio a pandemia em que vivemos, essa tem sido a única forma em que posso cobrar diretamente do clube, mesmo sem ter qualquer resposta – disse.

Apesar das dificuldades para estimar os números da violência, segundo o levantamento divulgado, em relatório, pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2018, o estado da Paraíba é o 5º que mais mata pessoas por motivação homofóbica.

Além da violência física, existe também a pressão e negativa por parte de familiares conservadores na aceitação, o que leva muitos a nunca revelar a sua verdadeira orientação para todos. Como é o caso de Juan Morais – nome fictício, um pedido devido às pressões familiares – de 27 anos.

Frequentador do Almeidão desde os 12 anos de idade, o torcedor, que já foi sócio por 2 anos, revelou que tinha planos de retornar ao quadro associativo durante a pandemia para ajudar o clube, mas que vai reconsiderar a possibilidade.

Assim como para as mulheres, a postagem do vidraceiro foi um motivo que acentuou a revolta. Para ele, será um fato a ser levado em consideração se um dia tiver vontade em voltar a ser sócio. A omissão contra a violência foi sinal de cumplicidade.

Vale lembrar que, em 2019, a Maravilha do Contorno também se viu em torno de cobranças em um dia de causas sociais. Celebrado no dia 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra quase passou em branco, onde uma postagem, ao final do dia, só foi realizada após forte pressão dos torcedores que cobravam a ação. Dentro do clube, o mesmo grupo de dirigentes e conselheiros contrários a publicação do dia Internacional contra a homofobia também se opuseram a lembrança, alegando que não deveria existir consciência negra, e sim consciência humana.

Equipe @Vozdatorcida