Michelle Ramalho nega machismo no futebol dirigente e do Auto Esporte rebate

Helamã, presidente do Auto Esporte (a direita). Foto: Arquivo pessoal

Única mulher à frente de uma entidade futebolística no Brasil, Michelle Ramalho, presidente da Federação Paraibana de Futebol (FPF), é uma negacionista declarada da existência de disparidade de gênero no futebol.

A mandatária não esconde seu posicionamento contrário às evidências que comprovam uma longa história de marginalização do futebol feminino e da presença de mulheres em diversos âmbitos esportivos, inclusive na posição ocupada pela presidente. No dia 14 de maio, durante evento online, Michelle reafirmou que não acredita em “discurso de preconceito no futebol”.

– Olha, eu discordo dessas feministas. Eu acho que, apesar do futebol ser, realmente, um meio realmente mais masculino, eu acho que é masculino porque as mulheres não se interessam, não vão atrás de procurar trabalhar com o futebol. […] Não existe esse preconceito – falou a presidente.

Desde os primórdios da atividade esportiva e, mais especificamente, futebolística, a presença feminina possui uma grande resistência masculina com o rótulo de que o esporte não é uma atividade “para mulheres” por necessitar de esforço e desempenho físico. Tomando o espaço como seu, os homens protagonizam o lugar de destaque no esporte, mas, nos últimos anos, assistem à luta das mulheres por espaço. Ainda assim, Michelle nega o machismo existente para além dos campos de futebol e que resulta em altos números mensais de feminicídios, por exemplo.

Campeão Paraibano de futebol feminino de 2019, o Auto Esporte é o representante do estado no Campeonato Brasileiro A2. Com crise na categoria de futebol masculino profissional, as meninas do Auto representam a fonte única de alimentação de renda do Macaco Autino. Para cuidar da categoria, Sandra Marrocos, vereadora em João Pessoa e militante da luta das mulheres, passou a integrar a diretoria de futebol feminino do clube dias antes do início da paralisação das competições devido à pandemia do coronavírus.

Durante a Live do VT sobre o futebol feminino na última terça-feira (19), Sandra Marrocos se mostrou indignada com a postura negacionista de Michelle Ramalho, mas tomou para si a missão de tentar mudar a visão da mandatária.

– Estou surpresa com essa fala. Indignada, o termo é esse. Estou na energia de conquistar Michelle, da sororidade, dela entender que tudo para as mulheres é mais difícil. O futebol é um espaço hegemonicamente masculino. Espero que ela esteja acompanhando esta live. Eu encaminhei para Otamar (de Almeida, diretor da FPF) para que ele passasse para ela, eu quero somar. Mas se ela faz essa fala, é muito desafiante, mas vou conquistá-la. A conheci por acaso ela, ela estava campanha, e disse “que bom que uma mulher se colocando, uma mulher jovem”. Espero que ela se abra para a construção de gênero, da construção do fortalecimento e das dificuldades que é a mulher chegar no futebol, a falta de incentivo, de apoio, de patrocínio, o preconceito é muito presente. Meu outro contato com Michelle não foi positivo. Eu estava no jogo em Cruz das Armas, as meninas não receberam a premiação financeira, que é muito importante, não tinha água para as meninas. Falei com ela por telefone, ela se colocou a disposição. Mas, apesar desse desencontro, essa falta de desconstruir, minha energia com Michelle é da sororidade e da conquista – relatou Sandra Marrocos.

A indignação da dirigente do Macaco Autino reflete no sentimento das mulheres inseridas no ambiente esportivo como atleta, jornalista, dirigente ou torcedora já que sentem na pele o peso da não aceitação, assédio e preconceitos diversos. Além de mostrar o desconhecimento do preconceito sofrido por várias mulheres, posicionamentos como o de Michelle Ramalho são o retrato do não reconhecimento da regularização e profissionalização que o futebol feminino necessita que resultam na precariedade ainda crescente da categoria.

Em um estado com uma mulher como presidente da instituição que gere o futebol, a categoria feminina está, cada dia mais, precarizado. No momento, apenas o Auto Esporte e o Botafogo-PB possuem projetos de equipes femininas. Apenas o alvirrubro está em atividade e, ainda assim, sem alcançar a profissionalização. As atletas do Macaco não possuem contrato  profissional como os homens possuem. Outros grandes do futebol paraibano, Campinense, Treze e Sousa pouco investem na categoria.

Durante o período pandêmico, as meninas estão recebendo um auxílio de R$900 reais divididos em três parcelas, proveniente da verba emergencial recebida pela CBF, e realizando treinamentos em casa passados pelo treinador e equipe técnica.

Equipe @Vozdatorcida